MONOGRAFIA DE FLORBELA ESPANCA – por Rita de Cássia Amorim Andrade (Ensaios)

Postado por Rita de Cássia ligado jun 23, 2011 em Ensaios Literários | 3 Comentários

Monografia de FLORBELA ESPANCA

Por Rita de Cássia Amorim Andrade

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SUMÁRIO

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1.0.  Introdução………………………………………………………………..

2.0.  Referencial Teórico – Teresa Velho………………………………..

2.1.  Aspectos analisados…………………………………………………….

3.0.  Referencial Teórico – Sigmund Freud…………………………….

3.1.  Aspectos analisados……………………………………………………

4.0.  Referencial Teórico – Affonso Santana…………………………..

4.1.  Aspectos analisados……………………………………………………

5.0.  Referencial Teórico – Carl Jung……………………………………

5.1.  Aspectos analisados ………………………………………………….

6.0.  Referencial Teórico – Melanie Klein……………………………..

6.1.  Aspectos analisados…………………………………………………..

7.0.  Conclusão ………………………………………………………………

8.0.  Bibliografia……………………………………………………………..

9.0.  Anexos: A – Repercussão do livro e da autora na modernidade;

                      B – Depoimentos – recortes………………………………………

INTRODUÇÃO

 

 FLORBELA ESPANCA ressurge no transcurso do centenário do seu nascimento, com SONETOS, antologia dos melhores trabalhos: “Livro de Mágoas”, “Livro de Soror Saudade”, “Charneca em Flor” e “Reliquiae”. Pelo poder da poesia, oferece subsídio para o conhecimento mais profundo da sua vida e da sua obra. Poesia de rara beleza, cúmplice que foi dos seus sentimentos, desnuda-lhe os segredos e proporciona vasto material a ser estudado por um prisma psicanalítico, cujo alcance de investigação teórica, reportar-se-á às teorias freudianas, no campo da repressão que tanto conflitou a poetisa, levando-a à clausura psicológica. Com recorrência, também, em Teresa Velho, Affonso Romano de Sant’Anna, Melanie Klein, pretende-se compreender Florbela Espanca, a mulher e a poesia, sua condição de enclausurada, notadamente no “Livro de Mágoas”.

 REFERENCIAL TEÓRICO

 

2.0 Teresa Velho, mestra em Literatura Brasileira, opina sobre fatos lingüísticos, especialmente de natureza estética, que mesmo coerentes e estruturados são passíveis de análise que os levem a entendimentos profundos de uma obra e que, buscar-se-á um elemento que se mantém invariante. Mesmo que esta invariante assuma várias formas, convergir-se-á sempre para uma essência.

2.1.  Com base nessa colocação, cogita-se no modo como Florbela Espanca alcançou o sentido da vida, ou não alcançou, numa busca incessante, no seu impenetrável mundo existencial. Desdobrando-se em sombra: “…Sombra de névoa ténue e esvaecida,” ( Livro de Mágoas, p. 39), luz: “Sou no teu rosto a luz que o alumia” (Reliquiae, p. 183), árvore: “Eu queria ser a árvore tosca e densa” (Livro de Mágoas, p. 54), pedra: “Eu queria ser a pedra que não pensa,” (Idem, p. 54), soror: “Irmã, Soror Saudade, me chamaste…/E na minh’alma o nome iluminou-se…” (Livro de Soror Saudade, p. 73), princesa: “Ó Princesa Encantada da Quimera!…” (Idem, p.75), revela-se uma pessoa profundamente angustiada. Sua insatisfação, ansiedade, insaciabilidade levou-a a voluptuosidade, donjuanismo e conseqüentemente ao narcisismo. Toda essa dispersão se convergia para o enclausuramento. Desse ponto nevrálgico parte este estudo sobre Florbela.

Os traços característicos da sua vida não se podem separar dos da sua obra.

No “Livro de Mágoas, escrito quando muito jovem, já demonstrava um mundo em oposições:

Este livro é de Mágoas. Desgraçados

Que no mundo passais, chorai ao lê-lo!

Somente a vossa dor de Torturados

Pode, talvez, senti-lo… e compreendê-lo. (p. 37)

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Sonho que sou a Poetisa eleita

Aquela que diz tudo e tudo sabe,

Que tem a inspiração pura e perfeita,

Que reune num verso a imensidade! (p. 38).

Ao valer-se desses parâmetros, tenta-se encontrar na sua vida psicológica, a razão do enclausuramento numa mulher que se autodefinia como: “(…) uma corajosa rapariga, sempre sincera consigo mesma (…). Honesta sem preconceitos, amorosa sem luxúria, casta sem formalidades, reta sem princípios, e sempre viva, exatamente viva, a palpitar da seiva quente como as flores selvagens da tua charneca”.

No “Livro de Mágoas, tendo como leit-motiv o enclausuramento, pressupõe-se certas relações que se interagem, cujas partes constituintes, mesmo variadas possuem a mesma substância.

Mediante a forma de “soneto”, com estrutura definida, Florbela nos oferece uma pista para o que seria o seu “claustro”, escolhendo versos medidos, presos, numa época de passagem para o “modernismo”, em que os versos livres predominavam.

3.0.   Freud afirmava que os poetas e pensadores sabiam da existência do inconsciente, mas   

que coubera a ele prová-lo cientificamente, no campo da psicologia: “Obtivemos o nosso conceito de inconsciente a partir da teoria de repressão”. Originalmente, Freud admitia ser a repressão um fato consciente, esforço para esquecer certa idéia, mesmo que nas fases subseqüentes a repressão não tivesse acesso ao consciente ou ser por ele regulamentada. Os estados mentais seriam idéias, às vezes, carregadas de afeto. Richard Wolheim argumentava que, assim sendo, a idéia e o afeto estariam separados pela própria repressão. O afeto poderia ser inibido; poderia permanecer consciente, mas ligado a outra idéia; ou poderia sofrer uma transformação, notadamente em ansiedade.

3.1. Sendo a repressão, em Florbela, uma condensação de tudo que viveu e não conseguiu administrar interiormente, partiu para o sonho, em que a poesia foi o seu instrumento maior. Sabe-se que desde tenra idade desprezava a mãe biológica: “E não tenho uma sombra fugidia / Onde poise a cabeça, onde me deite! (…) A minha pobre mãe tão branca e fria / Deu-me a beber a Mágoa no seu leite!” (Livro de Mágoas, p. 49). Fato curioso é que, nascida de uma situação insólita, negou afeto à mãe, a mãe que, ao ouvir dizerem ser a recém-nascida uma flor, sentenciou: “Flor se chamará”. Contudo adorava o pai e até o perdoara por não tê-la reconhecido oficialmente. Aos 8 anos, por conta própria, já assinava “Florbela Espanca”. “Nasci envolta em trajes de mendiga; / E, ao dares-me o teu amor de maravilha, / Deste-me o manto de oiro de rainha! (Reliquiae, p. 204). Criada pela madrinha, mulher do seu pai, Florbela parece ignorá-la nos seus poemas.

Aos 8 anos já fazia versos, já tinha insônias e já as coisas da vida me davam vontade de chorar. Tive sempre esta profunda e dolorosa sensibilidade que um nada martiriza esta mesma ternura apaixonada pelos bichos inocentes e simples.

 

Freud ressaltava que as neuroses pareciam surgir na primeira infância, embora os sintomas viessem a surgir bem mais tarde. A neurose infantil seria passageira ou nem seria notada. Mas poderia ter repercussão na vida adulta. As neuroses como distúrbios do ego, deviam-se na infância, a um ego débil, imaturo, sem resistência e, muitas vezes, criador de “traumas”, a defender-se com tentativas de fuga (repressão). O ego da criança sob o domínio do mundo real livrar-se-ia das exigências instintivas, indesejáveis, através do que ele chamou “repressão”.

Nessa ordem de idéias freudianas, associando-as a Florbela, pode-se entender as razões que a levaram ao estado de enclausuramento:

 

Castelã da Tristeza, porque choras

Lendo, toda de Branco, um livro de horas,

À sombra rendilhada dos vitrais?…   (Livro de Mágoas, p. 40)

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A minha Dor é um convento ideal

Cheio de claustros, sombras, arcarias,

Aonde a pedra em convulsões sombrias

Tem linhas dum requinte escultural.

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Neste triste convento aonde eu moro,

Noites e dias rezo e grito e choro,

E ninguém ouve… ninguém vê… ninguém…  (Idem p. 44)

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O sol morreu… e veste luto o mar…

E eu vejo a urna de oiro, a balouçar,

À flor das ondas, num lençol de espuma.

 

As minhas Ilusões, doce tesoiro,

Também as vi levar em urna de oiro,

No mar da Vida, assim… uma por uma… (Idem p. 46)

 

Mais ainda, o intenso amor pelo irmão, incestuoso ou não, deixou em Florbela uma profunda amargura, sobretudo, pela morte intencional dele, ao jogar o seu avião contra o rio Tejo, por ter-lhe morrido a noiva.

As lembranças involuntárias (?) da infância, evocações afetivas, a presença constante desse irmão, são sintomáticas. Sobre os sintomas da neurose, Freud evidencia uma satisfação que substitua algum impulso sexual ou alguma medida para impedir tal satisfação.

               CRUCIFICADA

Amiga… noiva… irmã… o que quiseres!

Por ti, todos os céus terão estrelas,

Por teu amor, mendiga, hei-de-merecê-las

Ao beijar a esmola que me deres.

 

Podes até amar outras mulheres!

Hei-de compor, sonhar palavras belas,

Lindos versos de dor só para elas,

Para em lânguidas noites lhes dizeres!

 

Crucificada em mim, sobre os meus braços,

Hei-de poisar a boca nos teus passos

Pra não serem pisados por ninguém.

 

E depois… Ah! Depois de dores tamanhas

Nascerás outra vez de outras entranhas,

Nascerás outra vez de uma outra Mãe!   (Charneca em flor, p. 140).

4.0     Affonso Romano Sant’anna põe em relevo os “castelos” como símbolos eróticos. A bela adormecida ressuscitada pelo beijo de um príncipe. Mas o príncipe de Florbela não chega. Seu “castelo” é uma prisão; ela está desperta e angustiada.

4.1.   A princesa enclausurada num castelo, remete-se a tempos remotos, medievais, como  medieval foi a atitude do pai de Florbela, que utilizou um costume daquela época: se a mulher fosse estéril, era permitido ao marido fazer filhos fora do lar.

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Onde está ele, o Desejado? O Infante?

O que há-de vir e amar-me em doida ardência?

O das horas de mágoa e penitência?

O príncipe Encantado? O Eleito? O Amante?

 

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Um fogo-fátuo rútilo, talvez…

E eu ando a procurar-te e já te vejo!

E tu já me encontraste e não me vês!…   (Reliquiae, p. 181).

 

5.0 Jung, também se refere à Turris ebúrnea como de natureza erótica. Em Florbela, o erotismo e a reclusão se mesclam. A “torre” é intangível.

Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível

Turris Ebúrnea erguida nos espaços,

À rutilante luz dum impossível!

 

Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber

O mal da vida dentro dos meus braços,

Dos meus divinos braços de Mulher!  (Charneca em Flor, p.145

 

5.1.   Vê-se, portanto, que em Florbela, o castelo possui conotação de desejo interdito. E esse desejo insatisfeito poderia estar no sonho de viver um grande amor não realizado nos seus companheiros, pois que almeja um deus:

Para aqueles fantasmas que passaram,

Vagabundos a quem jurei amar,

Nunca os meus braços lânguidos traçaram

O vôo dum gesto para os alcançar…

 

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Um homem? – Quando eu sonho o amor de Deus!… (Charneca em Flor, p. 139).

 

6.0  Melanie Klein fala do imaginário poético como posição paranóide em que os estados depressivos passam da exuberância ao abatimento.

A Flor do Sonho, alvíssima, divina,

Miraculosamente abriu em mim,

Como se uma magnólia de cetim

Fosse florir num muro todo em ruína.

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Desde que em mim nasceste em noite calma

Voou ao longe a asa da minh’alma

E nunca, nunca mais eu me entendi… (Livro das Mágoas, p.50)

 

6.1.   A ambivalência é sintomática na poesia de Florbela Espanca. No soneto “Último sonho de Soror Saudade”, pode-se verificar, ainda, uma última tentativa de retorno ao mundo real, mas o sentido de enclausuramento, a impotência diante de mundo que lhe foi adverso, leva-a de volta ao seu convento:

 

Soror Saudade abriu a sua cela…

E, num encanto que ninguém traduz,

Despiu o manto negro que era dela,

Seu vestido de noiva de Jesus.

 

A noite escura, extasiada, ao vê-la,

As brancas mãos no peito quase em cruz,

Teve um brilhar feérico de estrela

Que se esfolhasse em pétalas de luz!

 

Soror Saudade olhou… Que olhar profundo

Que sonha e espera?… Ah! como é feio o mundo,

E os homens vãos! – Então, devagarinho,

 

Soror Saudade entrou no seu convento…

E, até morrer, rezou, sem um lamento,

Por Um que se perdera no caminho!…

 

      O enclausuramento de Florbela, também se manifesta em outros livros:

Cheguei a meio da vida já cansada

De tanto caminhar! Já me perdi!

Dum estranho país que nunca vi

Sou neste mundo imenso a exilada. (Livro de Soror Saudade, p. 85)

 

A minha mocidade outrora eu pus

No tranqüilo convento da Tristeza;

Lá passa dias, noites, sempre presa,

Olhos fechados, magras mãos em cruz. (Livro de Soror Saudade, p. 99).

 

CONCLUSÃO

 

7.0 Este círculo, que principia com o nascimento de uma Flor que não brotou do amor, fecha-se com o último e definitivo enclausuramento, a morte. Toda a travessia de Florbela foi de anseios, procuras, tolhidos pelos próprios abismos de sua alma. Não superou os estranhamentos do seu nascimento. Quanto mais buscava vida, amor, mais os elementos repressores, subjacentes, levavam-na à clausura. Os castelos e conventos, em um jogo de interdição, tiravam-lhe a chance de ser feliz. Lutou contra uma sociedade repressora, mas soube divinamente enviar a sua mensagem, seu grito de revolta, seu testemunho de vida, utilizando-se de uma linguagem que tão bem conhecia: a poesia. Em Freud, Affonso Sant’anna, Jung, Melanie Klein, buscou-se a explicação para Florbela Espanca. – “… a descoberta da estreita relação existente entre a lembrança inconsciente da infância e a obra do autor”, como disse Freud. Mais uma vez retorna-se a Freud, que postula o instinto da morte (Thanatos), um instinto agressivo, dirigido ao próprio indivíduo e contra este. Necessidade de autopunição ou sentimento inconsciente de culpa e elemento sexualmente presente, tudo numa fusão instintiva:

Seja o que for, será melhor que o mundo!

Tudo será melhor do que esta vida.

8.0 BIBLIOGRAFIA

 

FREUD, Sigmund. Cinco Lições de psicanálise (Os Pensadores). Victor Civita, São Paulo, 1978

SANT’ANNA, Affonso Romano de. O Canibalismo Amoroso. Rocco, Rio de Janeiro, 1993.

JUNG, Cark Gustav. O Pensamento Vivo de Jung. Martin Claret Editores Ltda, São Paulo, 1986.

 
A VIDA DE FLORBELA ESPANCA

 

FLORBELA ESPANCA nasceu no dia 08 de dezembro de 1894, em Vila Viçosa, Alentejo, filha de José Maria Espanca, cuja mulher, Mariana do Carmo Inglesa Espanca não conseguindo ter filhos consentiu que o marido engravidasse Antonia Lobo. Foi registrada como filha de Antonia da Conceição Lobo e pai incógnito e batizada com o nome de Florbela Lobo. Aos oito anos passou a assinar Florbela D’Alma da Conceição Espanca (só foi legitimada dezenove anos após sua morte). Foi criada pela família Espanca, mas sempre recebendo a visita da mãe biológica. Dois anos e três meses após seu nascimento, o pai engravidou novamente Antonia Lobo, provocando ciúmes na esposa, que rejeitou a criança e a mãe. O menino de nome Appeles foi também registrado com o nome da mãe e pai incógnito. Florbela cresceu sentindo um profundo carinho pelo irmão, visto como relação incestuosa. Esta versão foi negada por Maria Luz, dramaturga portuguesa que disse ser a relação entre os dois, muito sólida, talvez pelo inusitado da situação, duas mães e um pai ausente. Contudo, Florbela adorava o pai e até lhe perdoara por não tê-la reconhecido oficialmente. Tinha crises de nervo que os médicos não conseguiam diagnosticar, e segundo ela, achavam que a ela tinha problemas de ovários, contribuindo para a doença dos pulmões.

Fez o secundário em Évora, já casada. Suas primeiras publicações poéticas, inspiradas em Antonio Nobre, foram em jornais. Estudou Direito. Separou-se do marido e passou a lecionar francês, inglês, geografia e história no Liceu, em Évora. Escreveu poemas, contos, cartas e diários, com a temática de amor, sofrimento e morte.

Foi desprezada pela sociedade da época, que não aceitava o seu comportamento de fumar em público. Considerada uma das primeiras feministas de Portugal, principalmente pelas suas defesas apaixonadas da liberdade e do amor. Teve mais dois outros casamentos, mas não conseguiu ser mãe, visto que abortou, involuntariamente, duas vezes. Permaneceu com o terceiro marido até a morte. Contudo, não foi suficiente para evitar um suicídio consciente e premeditado, ingerindo dois vidros de Veronal.

 

9.0 ANEXOS

 

DIÁRIO DE PERNAMBUCO

Recife, quinta-feira, 8 de dezembro de 1994

 
Depoimentos

 

Com um autêntico coração florbeliano, condenso melhor o pensamento que a poetisa calipolense transmitiu durante os seus 36 anos de vida. Falar de Florbela d’Alma Conceição Lobo Espanca é o mesmo que inserir um raio alvi na dimensão do céu  cinzento. Seja em qualquer uma de suas expressões femininas – Mulher, Poetisa ou flor – Florbela Espanca foi sobretudo corajosa, conseguindo impor seu grito numa época transparentemente preconceituosa. Os cérebres sonetos, além de terem uma afetividade ultradimentional, resistem ao tempo e ao paradoxo dos que insistem em conceituá-la com falso juízo moral.

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FERNANDO CÉSAR é poeta, autor do livro RETALHOS DE SOLIDÃO, cronista e aluno do curso de Letras da Universidade Federal de Pernambuco.

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Florbela Espanca serviu-se de uma forma poética convencional, o soneto, para falar dos sentimentos da mulher de maneira conseqüente e vibrante sem se prender a quaisquer convenções. Em sua poesia, a alma feminina desnuda-se, delicada e corajosamente, diante dos olhos do leitor, desafiando os preconceitos reinantes nas primeiras décadas desse nosso século já tão velho e prestes a morrer.

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 MARLY HAZIN é professora assistente de Língua e Literatura Inglesa da Universidade Federal de Pernambuco.

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A vida de Florbela Espanca podia ser um belo filme. Teve tudo para isso. Desde cenários até a própria época onde e quando se desenrolou. Bela chegou pronta para ser uma personagem: Bela desde o nome, vaidosa, elegante, com suas pérolas, suas tearas, suas peles, seus chapéus, sua pose lânguida de Diva de cinema mudo.

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MARIA DE LOURDES HORTA é poeta e romancista

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Florbela Espanca pertence a uma linhagem de poetas para os quais não se tem, esteticamente, uma classificação única e definitiva. Não cabe nas “grades” das escolas e movimentos literários. Contemporânea do Modernismo, recusou a aventura experimentalista, preferindo, às ousadias literárias da época, a placidez da forma clássica do soneto. Aprendeu-a no legado da melhor tradição poética portuguesa sem lhe serem estranhas contribuições que pôde trazer de poetas de outras culturas. Sem contradição aparente, colocou nessa forma clássica, onde encontrou o seu ritmo, uma voz plangentemente confessional marcada por reverberações neo-românticas. E nesse tear lírico que construiu para elaborar com o sentido a poesia resultante da sensibilidade que tinha e da que aprendeu, teceu com os fios da vida, entre a realidade e o sonho, as malhas do seu lirismo. Do linho rústico à maciez de veludos, ao exotismo de sedas e brocados, várias espécies de fibras passaram nesse tear poético de Florbela Espanca (…) Aparentada a clássicos e românticos, saudosistas, simbolista e modernistas, Florbela marcou o seu lugar, naturalmente integrada à família do melhor lirismo português. 

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Fragmento de ensaio inédito lido em mesa-redonda realizada no Centro de Artes e Comunicação da UFPE, em 25 de novembro último, para assinalar a passagem do centenário de nascimento de Florbela Espanca. JOSÉ RODRIGUES DE PAIVA é professor de Literatura Portuguesa, poeta e ensaísta.

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Florbela Espanca. Alma do Alentejo. Flor de Évora, fugitiva do pântano. O que se tenta esconder de sua vida salta despudorados nos seus versos. Dispensamos rótulos psicanalíticos, ou morais. Ignoramos se o preconceito é da sociedade ou da família. Só um poeta entende seus irmãos na sua face mais íntima. Daí haver Jorge de Sena sentenciado inexistir o direito de exumar, perante a sociedade, para seu gáudio, aquilo que foi, em vida, a cruz que ela impôs ao  poeta, acrescentando: porque a sociedade não merece confiança.

 Vestida de verde e roxo, personagem de Dostoievski, alma obscura e subterrânea, alma em carne viva, emblemática nos versos que, ao modo de Teixeira de Pascoaes sobre Antero, parecem gravados em lava de vulcão. Vestida de verde e roxo, Irmã Sóror Saudade publicando o seu primeiro livro, Lisboa de 1919, Lisboa de Virgínia Vitorino, Portugal de Irene Lisboa, o sonho da literatura, lirismo no coração.

Quando penso na intensa repressão aos costumes, na virada do século na Península, compreendo o suicídio de Sá-Carneiro, o alcoolismo de Fernando Pessoa e a loucura de Ângelo de Lima. Florbela mulher, Florbela de Vila Viçosa, Florbela divorciada, Florbela D’Alma Ansiosa, por  que a tanto te atreveste? Decerto em ti ecoavam as palavras de Leonor de Lorena e Lencastre: o estudo moderado é a delícia mais certa que se escolhe na solidão. Mas tu não tinhas esse roteiro das almas definidas, tudo em ti era indefinição; não fazias versos cuidadosamente eruditos, pois tua poesia era a enunciação de um grito, um canto em perene fortíssimo, naufrágio, ascensão, reator.

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LUCILA NOGUEIRA. Mestra em Teoria Literária pela Universidade Federal de Pernambuco. É Professora de Literatura Portuguesa e Brasileira nessa instituição.

 

Nota: Direitos registrados, podendo ser citada a origem.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3 Comentários para “MONOGRAFIA DE FLORBELA ESPANCA – por Rita de Cássia Amorim Andrade (Ensaios)”

  1. augusto disse em:

    Gostei muito do seu marerial sobre a vida e a obra de Frorbela, ou simplesmente Flor de Alma. Parabéns. Também gostaria de fazer meu tcc sobre essa poetisa que me despertou o gosto pela poesia.Você pode me indicar alguns materiais que eu possa explorar para começar minha pesquisa sobre Florbela Espanca. Desde já te agradeço.

  2. DANY ROCHA disse em:

    OBRIGADA MINHA LINDA, REALMENTE O MATERIAL FOI DE GRANDE VALIA. NO MOMENTO ESTOU UM TANTO QUANTO AFOGADA NOS LIVROS, MAS ESPERO TERMINAR LOGO ESTE CICLO RUIM PARA PODER RESPIRAR E VOLTAR ESCREVER LIVREMENTE. UM ENORME ABRAÇO!

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