OS SERTÕES – Euclides da Cunha – por Rita de Cássia Amorim Andrade (Ensaios Literários)

Postado por Rita de Cássia ligado set 9, 2012 em Ensaios Literários | 8 Comentários

“Os Sertões” revela a verdadeira Canudos

01/12/1902 – Mesmo sem a presença de seu autor, Euclides da Cunha, a primeira edição de Os Sertões foi lançada pela Livraria Laemmert. O autor, envergonhado diante de 80 erros de português que encontrou em cada uma das mil cópias impressas, viajou com destino ignorado temendo um vexame. Estava enganado. Os Sertões vendeu a metade da edição em apenhas oito dias. A obra traça um retrato jornalístico do que foi a Guerra de Canudos, que o autor trata como um ato criminoso. Euclides da Cunha passou cinco anos escrevendo o livro, cuja primeira edição pagou de seu bolso, um custo equivalente a dois meses de seu salário. O investimento deu lucro, como atesta o comentário do crítico Silvio Romero: “Se pode dizer que se deitou obscuro e acordou célebre, com a publicação do livro”.

Fonte: Reprodução JORNAL DO SÉCULO – Um produto do Jornal do Brasil – 1902.

OS SERTÕES

EUCLIDES DA CUNHA

Trabalho Individual

Rita de Cássia Amorim Andrade

(Universidade Federal do Piauí-UFPI-1995)

Nota: Não pode ser copiado sem a citação da fonte.

1 – Síntese da obra

Divide-se em três partes:

A TERRA

Começa descrevendo o aspecto geográfico e físico do sertão, desde o Planalto Central, passando pelo litoral sulista, Rio de Janeiro, Minas, até chegar ao Nordeste, dando ênfase local onde ocorreu a Guerra de Canudos. Mostra uma visão cientificista do clima, das secas, da caatinga, etc.

O HOMEM

Disserta sobre a “complexidade do problema etnológico do Brasil”. Estuda a questão racial, o tipo humano da região, principalmente, a figura de Antonio Conselheiro, o líder da revolta de Canudos, seu aspecto pisicológico, os costumes, as crenças e as superstições.

A LUTA

Narra a luta entre as forças do Governo e os fanáticos, resultando na morte de Antonio Conselheiro.

A pregação messiânica do beato Conselheiro reuniu mais de 20 mil fieis no pequeno Arraial de Canudos, pondo em xeque a recém-proclamada República.

Antonio Conselheiro saia gritando pelos sertões: “…em 1896 hade rebanhos mil correr da praia para o certão” (sic) (p.180-vol.II). “Em verdade vos digo, quando as nações brigam com as nações, o Brazil com o Brazil, a Inglaterra com a Inglaterra, a Prússia com a Prússia, das ondas do mar D. Sebastião sahirá com todo o seu exército.” (p.181-vol.II).

Canudos cresceu rápido. Possuia mais de 25 mil habitantes, fugidos do litoral, das escravidões, das misérias. Seus seguidores eram aleijados, cegos, doentes, jagunços, etc. Mas cantavam e rezavam juntos. Plantavam e colhiam juntos.

Antonio Conselheiro entra em choque com a igreja e o Governo.

A revolta teve início quando Antonio Conselheiiro, por se sentir lesado na compra de madeiras, ameaçou tomar o suprimento à força, com os seus jagunços. O juiz de direito de Juazeiro pediu ajuda ao governo da Bahia. Por sua fama de monarquista, Antonio Conselheiro acabou entrando em choque com as forças federais, que consideravam aqueles pobres fanáticos como foco de rebelião contra o governo. Em algumas lutas, as tropas federais foram derrotadas, até que o governo, através de um ataque maciço, arrasou o povoado e toda sua população.

ANÁLISE COMPORTAMENTAL DOS PERSONAGENS

Protagonista: Antonio Vicente Mendes Maciel, cognominado Antonio Conselheiro.

Quando adolescente, Antonio, foi um rapaz tranquilo e tímido, ajudava o pai no trabalho de caixeiro. Ao ser exterminda a família, cuidou das três irmãs sobreviventes, e após tê-las casado, forma sua própria família. Mas sua mulher é problemática. Conseqüentemente, começa a mudar de lugar e de comportamento. A mesma é raptada por um policial. Antonio, envergonhado, começa sua peregrinação pelos sertões. Surge 10 anos depois, na Bahia, com outro aspecto cabelos compridos, barba longa, usando um hábito azul e de bastão – esquelético – assustando aquela gente supersticiosa.

Nascia um falso profeta, evangelizando e pedindo esmola. Virou milagreiro. A muntidão o acompanhava.

Segundo o autor, Antonio Conselheiro, por si só não teria valor não fosse o meio circunstancial, “indo para a história como poderia ter ido para o hospício”. (p.161-vol.I).

Manteve um fanatismo delirante, mas sua mente não desencadeou para a loucura propriamente dita.

É um personagem em aspiral, no momento em que muda várias vezes seu comportamento. Contudo, no desenrolar de sua vida como milagreiro, segue um ritmo linear.

Coronel Antonio Moreira César – perseguidor de Antonio Conselheiro. Veio de Santa Catarina, aclamado pelos seus feitos na campanha federalista do Rio Grande. Figura raquítica, “um tórax desfibrado sobre pernas arcadas em parêntesis”. Era epilético. Personalidade forte, cruel, vingativa e ambiciosa.

Demais personagens: biótipos:

O vaqueiro – sertanejo. “Fez-se homem, quase sem ser criança” Sempre lutando contra a região adversa. É desconfiado e ingênuo.

O jagunço – é menos heroico, mais perigoso, forte e duro. É destruidor e frio. Sabe recuar, mas é traiçoeiro.

O gaúcho – antítese do vaqueiro nordestino, não precisa lutar contra o clima adverso. Ama a natureza prodigiosa. É atraente e conversador.

2 – Variedade: Linear ou não – importância na trama.

Narrativa linear, progressiva, dividida em 3 partes: – a terra, o homem e a luta – associados, para um fim implícito. Ao mesmo tempo analítico, ao estudar o tipo humano e suas características.

3 – Estrutura da obra:

a) Enredo ou trama:

1ª parte: a terra e sua natureza: o clima, as secas, a flora (caatinga).

2ª parte: o homem, a natureza humana, suas carcterísticas multirraciais.

3ª parte: a luta, onde a trama se concretiza, conflito entre a sociedade arcaica e a urbana, motivado pelo atraso, a pobreza, a ignorância e o abandono do povo, no interior do país, versus a ignorância da sociedade urbana e sua falta de escrúpulos. Tropas do Governo Republicano (litoral) contra fanáticos seguidores de Antonio Conselheiro (sertão baiano).

b)    Trama ou assunto: Guera de Camudos.

Um episódio irrelevante acaba por desencadear um conflito de proporções avassaladoras.

c) Tempo: cronológico.

d) ) Espaço: descritivo, intimamente ligado a ação. Interior nordestino, sertão e a cidade.

“Varada a estreita faixa de cerrados, que prolongam aquele útimo rio, está-se em pleno agreste…”

“Intercorrem ainda paragens menos estéreis, e nos trechos em que se operou a decomposição in situ dogranito, originando algumas manchas argilosas, as copas virentes dos ouricurizeiros circuitam – parêntesis breves abertos na aridez geral – bordas das ipueiras.” (p.39-vol.I).

e)    Ação – dinâmica – externa – os personagens se deslocam no espaço. Antonio Conselheiro e seus seguidores versus tropa militar comandada pelo Coronel Moreira César.

f)     Cenário – fundamental para a composição da história: o sertão e suas vicissitudes.

g)    Ambiente – externo – campo de guerra, vilarejo de Canudos.

h)    Atmosfera – fanatismo, revolta, ódio, vingança, crueldade.

i)      Ponto de vista – do autor, onisciente e onipresente. O narrador conhece as características do espaço e dos personagens. Narrado em 3ª pessoa.

4 – Análise linguística:

a) Uso da língua – Linguagem utilizada pelo autor: artística literária, rica pomposa, rebuscada, plástica, formal.

b) Tipo de discurso – narrativo descritivo: A Terra; narrativo dissertativo: O Homem; mais narrativo: A Luta.

Discurso direto: raríssimo.

Linguagem dos personagens do sertão: regionalismo:

“Um cabra destalhado ralha na viola…”

“Revoluteia, brabo e corado, o sertanejo moço” > significando todo indivíduo forte, hábil, etc.

5a – Análise estilística:

- Onomatopéia – harmonia imitativa, peculiaridade dos fonemas, nas consoantes oclusivas: “De repente estruge ao lado um estriduto tropel de cascos sobre pedras, um estrépito de galhos estalando, um estalar de chifres embatendo; tufas nos ares, em novelos, uma nuvem de pó; rompe a súbitas, na clareira, embolada, uma ponta de gado; e logo após, sobre o cavalo que estaca esbarrado, o vaqueiro, tenso nos estribos…”(p.138-vol-1).

- Antítese – “Em que pese aos estios longos, as trombas formidáveis de areia, e ao saltar de súbitas inundações, não se incompatibilizam com a vida.” (p.72-vol.1).

- Hipérbole: “E o sertão é um paraíso…” (p.71-vol.1).

- Imagens contrastantes: “É o homem permanentemente fatigado. // Reflete a preguiça invencível, a atonia muscular perene, em tudo: na palavra remorada, no gesto contrafeito, ano andar desprumado, na cadência langorosa das modinhas…” “Naquela organização combalida operam-se, em segundos, transmutações completas. Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-se o desencadear das energias adormecidas. O homem transfigura-se. Espertiga-se, estadeando novos relevos novas linhas na estatra e no gesto; e a cabeça firma-se-lhe, alta, sobre os ombros possantes aclarada pelo olhar desassombrado e forte…” (p.128/9-vol.1).

- Polissíndeto – (texto anterior) – acarreta ritmo lento das idéias, com intenção de prender mais a atenção: “…na estatura e no gesto; e a cabeça firma-se-lhe… e forte; e corrigem-lhe…; e da figura vulgar…”

- Palavras técnico-científicas: “E o facies daquele sertão…” (p.39-vol.1).

- Estrangeirismo: “feito loghans osilantes, ou grandes desmonoramentos de dolmens,… (p.42-vol.I).

5b – Traços morfossintáticos – valores expressivos da morfologia e da sintaxe.

Monteiro Lobato escreveu a Godofredo Rangel sobre a preferência de Euclides da Cunha pelo adjetivo posposto como um dos fatores expressivos do seu estilo:

“Colocado ao dorso des (cavalo), confundindo-se com ele, graças à pressão dos jarretes firmes, realiza a criação bizarra de um centauro bronco: emergindo inopinadamente nas clareiras; mergulhando nas macegas altas; saltando ipueiras; vingando cômoros alçados; rompendo, célere, pelos espinheirais mordentes; precipitando-se, a toda brida, no largo dos tabuleiros…” (p.130-vol.I).

Obs.: O adjetivo posposto expressa valor definitório, conceito técnico.

Os adjetivos acima possuem dimensões de signos descritivos, capazes de evocar imagens sensoriais.

No texto, a imagem do homem no dorso de um cavalo, sendo comparado a um centauro bronco, a toda brida (em disparada), evoca a figura fanfarrona do vaqueiro nordestino.

Os verbos no gerúndio: confundindo-se, emergindo, precipitando-se > expressam a continuidade da ação.

6 – Análise literária: gênero, espécie e momento literário:

Gênero: narrativo, descritivo e dissertativo.

Espécie: “Poema épico em prosa.” (Luft).

Romance e ensaio científio.

Relato histórico e reportagem jornalística..

Momento literário: Pré-Modernismo – 1893/1902 a 1922.

Panoroma mundial:

-Pré-guerra

- Partilha da África

- Freud e a psicanálise

- Primeira Guerra Mundial (1914/18)

- Revolução Russa (1917)

- Vanguarda artística: Futurismo, Cubismo,         Dadaismo, Expressionismo.

Panorama brasileiro:

- A “República da Espada”

- Governo de Floriano Peixoto

- Revolta Federalista (RS)

- Revolta da Armada (RJ)

- Revolta de Canudos (BA-1897)

- Ciclo da borracha

- Revolta  contra a vacinação obrigatória (RJ-1904)

- Revolta da Chibata (RJ-1910)

- Greves anarquistas (SP-1917)

Características:

- ruptura com o passado

- denúncia da realidade brasileira

- tipos humanos marginalizados: o sertanejo nordestino, o caipira paulista, o homem do subúrbio do Rio de Janeiro.

Época:

“Bele époque”: o automóvel, o telégrafo, o telefone, a lâmpada elétrica, o cinema, o avião, quebrada pela eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

No Brasil, a abolição e a proclamação da República não trouxeram maiores modificações nas estruturas da sociedade. No plano externo, o país continuou sob o domínio do capitalismo europeu. No interior, as oligarquias, notadamente, a cafeicultura (política do café (SP) com leite (MG), associadas a grupos de exportadores, permaneceram no poder. Esta classe vive à moda europeia. Paralelamente, surgem nos centros urbanos uma classe média constituída de burocratas, comerciantes e profissionais, com espírito reformado, querendo participar do processo econômico e político e uma massa popular insatisfeita. O operariado começa a se organizar. Na zona rural, a classe dominante, os coronéis, brigam, entre si, pela posse da terra. Focos de agitação explodiam em toda parte, as rovoluções camponesas, de “Canudos”, a rebelião dos marinheiros contra o castigo corporal, chamada “Revolta da Chibata” e o cangaço no Nordeste.

Nas artes, enquanto a elite cultiva a valsa, a polca, a opereta, o povo se manifesta através da “modinha” e danças populares – lundu, maxixe, samba.

Surge o carnval.

A literatura é marcada pelo imobilismo e renovação. Há resíduos culturais do sec. XIX, ao mesmo tempo, busca de novas formas de expressão (Augusto dos Anjos).

Inconformados com a realidade sócio-cultural, os intelectuais tomam duas direções: urbanismo (Lima Barreto), satirizando o opourtunismo e a mediocridade dos letrados da “cultura oficial” e Graça Aranha. A outra, mais interessada na problemática interiorana e regional, destacando-se Euclides da Cunha. É uma literatura de transição, com características: “ecletismo” – mistura de tendências, correntes e estilos. A realidade do país, indefinições e contradições, é expressa com espírito crítico, realista e polêmica, pelos autores, com a finalidade de despertar a consciência nacional.

EUCLIDES RODRIGUES PIMENTA DA CUNHA

- Nasceu a 20/01/1866 – 15/08/1909

- Engenheiro Militar.

- Jornalista.

- Formação filosófica e literária – poisitivista

- Em 1897 é enviado pelo jornal “O Estado de São Paulo” a Canudos, como correspondente, onde começa a escrever “Os Sertões”, publicando-o em 1902.

- Em 1904 publica o “Relatório do Alto Purus”. No mesmo ano toma posse na Academia Brasileira de Letras, cadeira n. 07.

- Em 1909 passa em 2º lugar no concurso pra professor do Colégio Pedro II. No Mesmo ano acontece o trágico incidente da sua morte. Os dois filhos, seus e de Ana, tiveram a mesma sorte: Solon morreu assassinado no Acre e Euclides Filho, no Rio de Janeiro, numa troca de tiros com o padrasto.

BIBLIOGRAFIA:

CUNHA, Euclides da. Os Sertões (vol.I e II). 1902. Ed. Três, São Paulo.

PIRES, Orlando. Manual de Teoria e Técnica Literária. 3ª edição. Ed. Presença. RJ. 1989.

IANNONE, Carlos Alberto (Fac. Filosofia, Ciências e Letras de Marília – na obra: “Os Sertões”). Rio de Janeiro, 1973, ed. Três.

MOISÉS, Massaud. A criação literária-Prosa. 13ª edição. Ed. Cultrix, São Paulo.

MARTINS, Nilce Sntanna. Introdução à estilística. T. A. Queiroz: ed. Da Universidade de São Paulo 1989.

SANTOS, Volnyr. Literatura. Porto Alegre, 1975. Gráfica e editora do professor gaúcho ltda.

SINOPSE, apostila – caderno teórico n. 5.

8 Comentários para “OS SERTÕES – Euclides da Cunha – por Rita de Cássia Amorim Andrade (Ensaios Literários)”

  1. Adriano Silva disse em:

    Gostei, porém fique atenta a erros de digitação.

  2. Carlota Vicentino Almeida Dos Santos disse em:

    Adorei mais queria o resumo do livro todo (vou ter que escrever tudo isso) Ameii :)
    tudo uma beleza

  3. Carlota disse em:

    Adorei mais queria o resumo do livro todo (vou ter que escrever tudo isso) Ameii :)

  4. joyce santos disse em:

    muito bom me ajudou bastantre na pesquisa que vou fazer

  5. Macianny disse em:

    Adorei o assunto e foi muito bom pq apesar de não ter o livro a pesquisa me ajudou bastante..

  6. Andréa Alves disse em:

    Parabéns, muito bom!

  7. Paulo Corimbaba disse em:

    Perfeito! Parabéns ;)

  8. SoniaNogueira disse em:

    Riqueza de detalhes incentivando a uma nova leitura.
    Li os Sertões há tempo, vou relê. Belo trabalho Rita, informativo e de valor literário. Abs.

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